Em uma noite de fevereiro de 2026, o Super Bowl LX deixou de ser apenas o ápice do esporte americano para se tornar um portal. No centro desse deslocamento sísmico, estava Bad Bunny, o artista porto-riquenho que, aos 31 anos, reescreveu o roteiro do Halftime Show. Não foi uma mera apresentação musical; foi uma liturgia de pertencimento, um manifesto em espanhol que ressoou com a força de um continente, transmitido para uma audiência global que, por alguns minutos, foi convidada a ver a América sob uma nova luz.
Pela primeira vez, um artista latino liderou o palco mais cobiçado do soft power cultural dos Estados Unidos, não pedindo licença, mas afirmando sua presença com a autoridade de quem sabe que sua cultura é, por si só, um poder.


O Palco como Arquivo Vivo: Música, Memória e Identidade


Benito Antonio Martínez Ocasio não apenas subiu ao palco; ele o transformou em um território simbólico e em uma extensão viva de DeBÍ TiRAR MáS FOToS, o álbum de 2025 que serve como um arquivo afetivo em tempos de memória digital efêmera. A escolha de um repertório que navegava entre o reggaeton pulsante de “Tití Me Preguntó” e “Yo Perreo Sola”, a energia contagiante de “Safaera” e “Party”, e a profundidade de faixas políticas como “El Apagón” e “Café con Ron”, revelou a complexidade de sua jornada artística. A performance foi um diálogo entre a música pop contemporânea e as raízes caribenhas, uma celebração da identidade porto-riquenha que se recusava a ser diluída. A presença de Lady Gaga, em uma versão salsa de “Die With a Smile”, e Ricky Martin, em “Lo Que Le Pasó a Hawaii”, não foram apenas participações especiais; foram pontes
geracionais, um reconhecimento de que a história da música latina é um rio contínuo, onde novas correntes se encontram com a sabedoria ancestral.
No palco, a cenografia não era apenas um pano de fundo; era uma declaração. Os canaviais, os jíbaros de chapéu de palha, os idosos jogando dominó, e a réplica da “La Casita” rosa, que se tornou um ponto de encontro para celebridades como Jessica Alba, Karol G e Pedro Pascal, criaram um microcosmo de Porto Rico. O gramado do Super Bowl, por alguns minutos, abrigou uma rua qualquer da ilha, transformando o espetáculo em um “álbum visual ao vivo” que questionava a oposição entre o excesso de imagens digitais e o risco do apagamento cultural. Era a memória dançando, vibrante e irredutível.

Estética, Política e a Redefinição da América

A estética e a encenação foram orquestradas com uma precisão que elevou o show a uma narrativa visual. Cada figurino, cada movimento coreográfico, cada transição, contribuía para a construção de uma história que era ao mesmo tempo pessoal e coletiva. O uso do gramado como um território simbólico, onde elementos da cultura porto-riquenha floresciam, reforçou a ideia de que a cultura não é estática, mas um organismo vivo que se adapta e se manifesta em qualquer espaço. A performance foi um convite para o mundo testemunhar a beleza e a resiliência de uma cultura que se recusa a ser silenciada.
Mas foi na dimensão política que a apresentação de Bad Bunny se tornou um farol. Em um contexto de crescentes tensões sobre imigração e identidade, o artista utilizou o palco do Super Bowl para tecer referências sutis e explícitas à colonização, gentrificação e à luta pela identidade latina nos EUA. Mensagens contra o ódio, o apagamento e a exclusão foram infundidas na narrativa do show, culminando em um momento de profunda ressonância.
Ao final, após um “God bless America!”, a menção a cada país da América Latina não foi um mero gesto; foi uma redefinição do próprio conceito de “América”. Foi um lembrete eloquente de que a América é vasta, diversa, e que a voz latina é uma parte intrínseca e inalienável de sua tapeçaria cultural.


O Legado de um Intervalo Inesquecível


A repercussão foi um eco global. A mídia internacional e o público reagiram com uma mistura de admiração e reconhecimento, solidificando o status de Bad Bunny não apenas como um ícone global, mas como um porta-voz de uma geração que exige ser vista e ouvida em seus próprios termos. O Super Bowl LX não será lembrado apenas como um evento esportivo, mas como um marco cultural, um momento em que a representação latina na televisão mundial alcançou um novo patamar. Foi um intervalo que não pediu para ser esquecido na segunda-feira seguinte, mas que se inscreveu na memória coletiva como um gesto artístico que provou que, mesmo em um mundo saturado de imagens, ainda há apresentações capazes de permanecer ‒ não porque foram gravadas, mas porque fizeram sentido.
E, desta vez, todos tiraram fotos.

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