Recentemente, a notícia da condenação de uma cidadã brasileira na Coreia do Sul por perseguir o astro do BTS, Jungkook, trouxe à tona discussões cruciais sobre os limites da admiração de fãs e a importância da privacidade de figuras públicas. O caso, que culminou em uma sentença de prisão suspensa, serve como um alerta sobre as consequências legais e éticas de comportamentos invasivos no universo do K-pop.
Entre 7 e 28 de dezembro do ano passado, a mulher brasileira realizou 22 visitas à residência de Jungkook no distrito de Yongsan, em Seul. Seus atos incluíram tocar a campainha, deixar itens pessoais e até mesmo invadir a propriedade ao seguir um entregador de comida por um portão lateral. Apesar de ter sido alertada pela polícia e de ter recebido uma ordem de restrição que a proibia de se aproximar a menos de 100 metros do artista ou de sua casa, ela persistiu em seu comportamento, retornando em janeiro para deixar fotos e materiais impressos nas proximidades da residência.
Em 8 de maio, o Tribunal Distrital Ocidental de Seul, sob a presidência do Juiz Park Ji-won, condenou a brasileira a um ano de prisão, com a pena suspensa por dois anos. Os crimes reconhecidos foram violação da Lei de Punição por Perseguição (Lei Anti-Stalking) e invasão de domicílio. A corte considerou que, embora a ré tenha agido na tentativa de expressar seus sentimentos, sem intenção de causar dano físico, a gravidade de suas ações e a violação das medidas protetivas justificavam a condenação. A expectativa é que ela seja deportada após a finalização do processo.
A Coreia do Sul implementou a “Act on Punishment of Crime of Stalking” (Lei de Punição por Crimes de Stalking) em 21 de outubro de 2021, com emendas em julho de 2023, para combater o crescente número de casos de perseguição. A lei define stalking como qualquer ato repetido ou contínuo, contra a vontade da vítima e sem razão justificável, que cause ansiedade ou medo. Isso inclui seguir, esperar na residência ou local de trabalho, enviar mensagens ou objetos indesejados, e até mesmo usar informações pessoais da vítima ou se passar por ela.
As penalidades para o crime de stalking podem chegar a três anos de prisão ou multa de até 30 milhões de wons sul-coreanos (aproximadamente 110 mil reais). Em casos que envolvem o uso de armas, a pena pode ser de até cinco anos de prisão ou multa de 50 milhões de wons. A lei também prevê medidas de emergência, como ordens de distanciamento de 100 metros e proibição de contato eletrônico, e medidas provisórias para proteger as vítimas. O caso da brasileira demonstra a seriedade dessas violações, reforçando que a admiração de fãs não justifica a invasão da privacidade alheia.
O termo “sasaeng” refere-se a fãs excessivamente obsessivos que se envolvem em comportamentos invasivos e ilegais para se aproximar de seus ídolos. Essa cultura, embora minoritária, representa um lado sombrio do fandom do K-pop, onde a linha entre admiração e obsessão é frequentemente borrada. O caso de Jungkook não é um incidente isolado, e muitos outros artistas já foram vítimas de stalking e invasão de privacidade. Nayeon, do TWICE, tem sido alvo de um stalker alemão desde 2019, que a seguiu em voos e fez ameaças de morte . Em junho de 2025, sasaengs invadiram o dormitório do grupo ENHYPEN e filmaram os membros enquanto dormiam, levando a agência Belift Lab a tomar medidas legais rigorosas. Nichkhun, do 2PM, revelou em março de 2026 ter sido vítima de perseguição e agressão física perto de sua casa. Taeyeon, do Girls’ Generation, já expôs publicamente listas de chamadas incessantes de sasaengs durante a madrugada, evidenciando o stalking telefônico.
A indústria do K-pop, com sua forte ênfase na interação entre ídolos e fãs, pode inadvertidamente criar uma falsa sensação de intimidade. Plataformas de comunicação direta e conteúdos que mostram o dia a dia dos artistas podem, para alguns, distorcer a realidade e alimentar a ilusão de um relacionamento pessoal. É crucial que agências, plataformas e os próprios fandoms reforcem constantemente a distinção entre a persona pública e a vida privada dos artistas.
Fandoms saudáveis são construídos sobre admiração, respeito e apoio, não sobre obsessão e invasão. A responsabilidade de manter esses limites recai sobre todos: as agências devem implementar medidas de segurança mais robustas e educar os fãs; as plataformas devem coibir comportamentos abusivos; e os próprios fãs devem autorregular-se, denunciando práticas sasaeng e promovendo uma cultura de respeito. Stalking é crime, e a privacidade é um direito fundamental, inclusive para aqueles que vivem sob os holofotes.
O caso da brasileira e Jungkook é um lembrete contundente de que a paixão por um artista não pode, em hipótese alguma, justificar a violação de sua privacidade e segurança. É um chamado para que a comunidade global do K-pop reflita sobre o que significa ser um fã de forma saudável e ética. A admiração genuína se manifesta no apoio à arte e ao bem-estar do artista, respeitando seus limites e seu espaço pessoal. Somente assim poderemos construir um ambiente onde a cultura pop coreana possa florescer sem que seus talentos vivam sob a constante ameaça da obsessão.