KATSEYE: da Dream Academy à conquista das paradas
KATSEYE é um girl group multinacional formado em 2023 pelo reality show The Debut: Dream Academy – uma parceria inédita entre a HYBE (responsável por BTS) e a gravadora americana Geffen Records. Como conta o grupo, “KATSEYE se inspirou no felino de olhos penetrantes e na ideia de enxergar o mundo com clareza”.Apesar de debutarem com um conceito POP mais “clean” (como em Debut e Touch), desde o início já havia sinais de tendências ousadas no grupo: cortes de cabelo, styling alternativo e pitadas de attitude jovem, estilo eclético que refletiu a cultura “gen Z” que o grupo quer canalizar.

Por que “Gnarly”? O nome da música
O título “Gnarly” vem de uma gíria em inglês com raízes na cultura surf/skate americana. Originalmente, “gnarly” descrevia algo “árduo, difícil ou intenso” – por exemplo, uma onda monstruosa no mar. Surfistas dizem “that wave was gnarly” (essa onda foi brava) exatamente nesse sentido. Na gíria dos anos 80/90, o termo também ganhou uma conotação irônica: passou a significar “legal, sensacional” (como “gnarly trick” – manobra maneiríssima). Esse duplo sentido – algo perverso/radical e ao mesmo tempo impressionante – casa bem com o clima irreverente da música. Escolher “Gnarly” como título evoca essa atitude meio badass e “descolada”, remetendo à cultura pop de rua (skate, surfe, memes) que o single explora.

Gnarly no contexto musical: influências hyperpop
Musicalmente, “Gnarly” representa uma virada total para o KATSEYE. Em vez do pop brilhante de antes, o grupo adotou uma batida bem agressiva, eletrônica e maximalista – na linha do hyperpop. A produção lembra nomes como SOPHIE, Charli XCX e outros criadores do selo PC Music: refrãos estrondosos alternam com versos bagunçados e deliberadamente desconexos. O refrão é um “boom” super processado, enquanto os versos soam interrompidos e cheios de ruído – tradição típica do hyperpop em subverter o pop tradicional. Liricamente, a música é quase um mix caótico de referências: as integrantes recitam frases sobre tudo – de bubble tea a Teslas – para provar que tudo pode ser “gnarly” (no sentido de bizarramente cool).
O hyperpop é um gênero ou movimento musical nascido nos anos 2010 na cena eletrônica alternativa, principalmente no Reino Unido e EUA. Em essência, é pop levadíssimo ao extremo: sintetizadores gritados, vocais autopintonados, distorções pesadas, e arranjos berrantes que misturam influências de EDM, rock, hip-hop e até metal. Como define a Rolling Stone UK, artistas hyperpop “fazem música digital levada ao mais flamboyant, discordante e espetacular extremo”. É um pop alucinado, que soa propositalmente exagerado e “esticado” como nos memes.
Hyperpop no K-pop atual: mais exemplos além do KATSEYE
O K-pop, sempre atento a tendências globais, tem flertado com elementos de hyperpop em algumas produções mais ousadas, embora o gênero ainda seja usado com moderação. Já vimos várias faixas “barulhentas” e híbridas lançadas por grupos de grandes empresas, sugerindo essa influência eletrônica máxima. Por exemplo, a girlband aespa experimentou sonoridades industriais e estilo cyberpunk em “Savage”, com sintetizadores metálicos e efeitos de videogame intercalados. Até boybands têm arriscado: o Stray Kids, conhecido por sons intensos, lançaram “Thunderous” com uma construção sonora única que lembra uma montanha-russa de explosões sonoras. Em resumo, pegadas de hyperpop – como vocal futurista, batidas glitchadas e colagens sonoras – aparecem pontualmente em títulos de K-pop focados no impacto visual e na performance.
Além disso, há artistas coreanos dedicados ao hyperpop. A revista Dazed destacou a rapper Effie como “a primeira heroína hyperpop da Coreia”. No álbum de estreia dela (chamado E), Effie mistura produção clubby de hyperpop com elementos de drill e pop triunfante. Ela cita sons do coletivo Drain Gang (Bladee, Ecco2k) como referências. Embora essas cenas sejam mais de nicho, mostram que o gênero está ganhando espaço fora do Ocidente. De modo geral, o K-pop atual está se abrindo para experimentações, e podemos esperar mais artistas incorporando toques “glitch” e vocais processados – afinal, o sucesso dos produtores de hyperpop e suas parcerias (pense em Charli XCX compondo para estrelas pop) tendem a influenciar cada vez mais o estúdio coreano.