O álbum Ruby (Odd Atelier/Columbia Records, 2025) de JENNIE não é apenas o registro de uma transição de carreira; é um tratado de autoria que redefine o que se espera de uma superstar global. Para quem observa o K-Pop não apenas como fenômeno, mas como vanguarda sonora, Ruby se apresenta como uma obra de arquitetura sonora meticulosa, onde a artista, pela primeira vez, assume o papel de arquiteta-chefe de seu próprio universo.
A libertação criativa de JENNIE, marcada por sua saída do sistema YG para seu trabalho solo, se traduz em um controle inédito. Sua participação na composição de 12 das 15 faixas do álbum é o dado técnico que sustenta a tese: Ruby é, em sua essência, um manifesto lírico que usa o Hip-Hop e o R&B como fundação para uma introspecção complexa.

A Dissecação Lírica: O Eu em Quatro Movimentos
A força de Ruby reside na capacidade de JENNIE de usar a composição para desmantelar a persona pública e revelar a artista em construção. Quatro faixas, todas co-escritas por ela, formam o quadrante emocional do álbum, cada uma funcionando como um pilar lírico e sonoro.
Temos a blindagem espiritual de “ZEN”, um Hip-Hop minimalista co-escrito com Bibi Bourelly, onde o flow se torna a defesa contra o escrutínio, transformando a ansiedade em um mantra de intocabilidade. Em seguida, “like JENNIE” atua como a metalinguagem do sucesso, um Pop-Rap agressivo cujo refrão é um sample de sua própria fama, um exercício de auto-referência e legado. A âncora cultural é fincada em “Seoul City”, um R&B urbano onde o trocadilho “Soul City” conecta a estrela global à sua origem. Por fim, a vulnerabilidade máxima é atingida em “twin”, uma balada acústica que serve como a desconstrução da persona em um monólogo sobre perda e encerramento de ciclos.

O Flow como Escudo: A Força de ZEN
“ZEN” é o ponto de virada conceitual do álbum. Liricamente, a faixa, co-escrita com a aclamada Bibi Bourelly, é uma resposta direta à pressão midiática. JENNIE não reage; ela se blinda. A letra é uma cartilha de resiliência:
“Thick skin layered like chains on chains on chains / Wear the pressure on my neck and rings… Nobody gon’ move my soul, gon’ move my aura, my matter.”

A produção é esparsa, quase claustrofóbica, dando peso a cada palavra. O flow de JENNIE é preciso, quase cirúrgico, transformando a ansiedade em um mantra rítmico. O ZEN aqui não é paz passiva, mas uma disciplina mental que a artista usa para proteger sua “matéria” (seu eu essencial) do caos externo. É o Hip-Hop como terapia de alto impacto.
A Metalinguagem do Legado: like JENNIE
O single principal, “like JENNIE”, é um exercício de metalinguagem pop. A faixa é um Pop-Rap que usa a própria fama da artista como tema. Ao questionar “Quem quer ser como JENNIE?” (Who want it like JENNIE?), ela transforma a imitação em um elogio, mas também estabelece uma distância intransponível.
A produção é maximalista, um contraponto à contenção de ZEN, celebrando o sucesso sem pedir desculpas. É a JENNIE que entende o poder de sua marca, mas que usa a composição para afirmar que o original é sempre mais valioso que a cópia. É um hino de empoderamento que se sustenta na autoridade de sua própria história.

A Âncora Cultural: Seoul City
A profundidade de Ruby se revela na forma como JENNIE ancora sua identidade global em suas raízes. A performance no MMA 2025, com o véu Hangeul e o vestido inspirado no Pagode Seokgatap, foi a materialização visual do que “Seoul City” faz sonoramente.

A faixa é um R&B urbano que usa o trocadilho “Soul City” para infundir a paisagem sonora de Seul com um significado pessoal. Não é apenas uma homenagem geográfica; é uma declaração de que sua identidade global é inseparável de sua fundação cultural. A artista usa sua plataforma para projetar a herança coreana, como visto no lançamento da fonte “ZEN SERIF”, provando que a tradição pode ser a vanguarda.
O Coda Acústico: A Desconstrução em twin
O verdadeiro golpe de mestre de Ruby é a faixa de encerramento, “twin”. Descrita pela própria JENNIE como a “mais pessoal”, ela é a desconstrução final da persona. A produção se esvai, deixando apenas a voz e a melancolia.
A letra é um monólogo confessional de uma beleza lírica rara. A metáfora da carta jogada no Atlântico (“It’s like I’m writing a letter / And I put in a twelve-ounce bottle of Heineken / In the Atlantic on a whim”) é a imagem de uma artista buscando encerramento. O tema é a perda de um relacionamento de dez anos, um “gêmeo” (twin) que se afastou. A honestidade crua de versos como:
“Guess I lost you and you lost me, but I put fuel to your flame. We will make up, make things right when we get older, friend.”
… é o momento em que a JENNIE, a estrela, desaparece, e JENNIE, a pessoa, se revela. É um ato de vulnerabilidade que confere ao álbum uma profundidade emocional que transcende o pop.

Veredito: O Novo Padrão
Ruby é um álbum que exige ser ouvido com atenção. É um trabalho que usa a linguagem do pop global para contar uma história profundamente pessoal e cultural. JENNIE não apenas se estabeleceu como uma artista solo viável; ela estabeleceu um novo padrão para a autoria no K-Pop. Ao controlar a arquitetura sonora e lírica de sua obra, ela nos entregou um álbum que é tão brilhante e multifacetado quanto a joia que lhe dá nome. É um marco.
